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Toalha no chão

por Bia do 302 · 28 de set. de 2026

Eu tinha acabado de sair do banho quando a campainha tocou e eu abri a porta enrolada na toalha.

O dia tinha sido daqueles que deixam a gente com o corpo inteiro pesado. Eu tinha passado horas segurando a mão das clientes, escutando queixa, dando consolo. O banho quente tinha relaxado um pouco os ombros, mas a cabeça ainda estava cheia de vozes e de horários. Eu sentia a pele ainda úmida, quente por dentro e por fora.

A campainha tocou duas vezes seguidas, rápido. Eu nem parei pra pensar direito. Enrolei a toalha no peito, prendi no quadril e fui descalça até a porta, os pés batendo no piso frio da cerâmica.

Abri sem olhar pelo olho mágico. A luz amarela do abajur da entrada caiu primeiro no rosto dele. Léo estava parado ali, com a sacola de comida pendurada numa mão e o capacete preto na outra. O cabelo dele estava grudado na testa, molhado de suor, e ele respirava mais rápido que o normal. O ar-condicionado zumbia baixo lá no canto da sala, misturando o cheiro de tempero quente que vinha da sacola com o cheiro dele.

— Oi, Michele... não esperava que fosse você entregando hoje — eu falei, a voz ainda rouca do banho quente.

Ele sorriu de canto de boca, aquele jeito dele quando fica sem graça, e olhou rápido pra sacola antes de me encarar de novo.

— Tava na rua, resolvi trazer eu mesmo. Tá quente ainda.

Eu senti o cheiro da comida subir junto com o cheiro do suor dele, algo forte e doce misturado, e fiquei ali parada, sentindo o ar-condicionado gelado na pele molhada.

A sacola ficou balançando um pouco na mão dele, como se ele tivesse perdido o ponto de equilíbrio por um segundo. Eu deixei o olhar cair nos braços, na camiseta que marcava onde os músculos trabalhavam o dia inteiro, e quando voltei pro rosto dele, vi que ele também estava olhando. Olhando pra toalha que eu apertava contra o peito, pro jeito que a borda roçava a parte de cima da coxa.

— Eu peguei o pedido só pra subir aqui e te ver, Michele — ele falou, a voz saindo um pouco rouca.

Eu ri baixo, mais de surpresa que de graça, e apertei mais a toalha no quadril.

— Tá suado da moto toda, né? Entra um pouco pra não ficar no corredor.

Ele hesitou, olhando pro piso frio e depois pra dentro do apartamento. O ar-condicionado zumbia mais forte agora que a porta estava aberta, empurrando um vento gelado que fazia minha pele arrepiar. Léo entrou devagar, deixando o capacete em cima da mesinha da entrada, e eu fechei a porta com o ombro, sentindo o metal frio contra a pele quente.

Ele colocou a sacola em cima do balcão da cozinha e ficou ali, mexendo no celular, mas o polegar não rolava a tela. Eu vi ele olhar de relance, rápido, e depois desviar quando percebeu que eu estava olhando também. O cheiro dele parecia ter ficado mais forte dentro de casa, misturando com o tempero que escapava da embalagem.

— O dia tá corrido pra caramba — ele disse, a voz mais baixa agora. — Pensei que você ia pedir de novo depois daquele dia que a gente conversou na porta.

Eu me encostei na parede, sentindo a cerâmica fria nas costas, e fiquei olhando pra ele segurar o celular como se precisasse de algo pra fazer com as mãos.

— Às vezes eu peço só pra ver se você tá trabalhando. Não sei por que.

Ele sorriu de canto de boca, aquele jeito de quem fica sem graça, e guardou o celular no bolso da calça. O olhar dele demorou um pouco mais que o necessário quando passou por mim, pelo jeito que a toalha marcava a curva da cintura, e eu senti o ar-condicionado gelado batendo direto na pele úmida, fazendo tudo ficar mais vivo.

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Eu vi o story dele mais cedo mostrando a rota de entrega e sorri sozinha quando a foto apareceu no meu celular. Aquele capacete preto na mesa de alguém, o sol batendo forte na rua. Agora ele estava aqui, e eu sentia que o sorriso tinha voltado sem eu perceber.

— Eu vi que você tava rodando pra caramba hoje — eu disse, a voz saindo mais baixa que o normal. — A foto do story apareceu enquanto eu tava secando o cabelo. Parecia quente pra caralho lá fora.

Ele coçou a nuca, aquela mão grande descendo devagar pelo pescoço antes de voltar pro bolso. O polegar dele ainda não parava quieto dentro da calça, mexendo no tecido.

— É, o delivery tá louco. Eu ia terminar mais cedo, mas peguei mais dois pedidos depois de ver o seu — ele respondeu, olhando pra sacola de comida como se precisasse de um motivo pra continuar ali.

Eu me afastei um pouco da parede, sentindo a cerâmica fria deixar uma linha gelada nas costas. O ar-condicionado zumbia mais forte agora, como se tivesse percebido que a gente ia ficar mais tempo parado.

— Você sempre faz isso? Pegar pedido que não é seu só pra subir no prédio de alguém? — perguntei, o canto da boca puxando um pouco. — Ou sou só eu que tenho esse privilégio?

Ele riu baixo, aquele som que sai quando ele fica sem graça, e balançou a cabeça devagar.

— Só você. Os outros clientes não me olham do jeito que você olha quando eu chego.

O cheiro dele parecia ter tomado conta do ar mais que o tempero agora. Eu podia sentir o suor misturado com o perfume barato que ele usava, algo que ficava na pele depois de horas na moto. Ele deu um passo pequeno pra frente, depois parou, como se tivesse mudado de ideia no meio do caminho.

— E como que eu te olho? — falei, a voz saindo rouca sem eu querer.

Ele olhou pra minha boca antes de responder, demorando um segundo a mais do que precisava.

— Como se você quisesse que eu ficasse mais tempo que o necessário pra entregar a comida.

A gente ficou em silêncio por um segundo. Ele deu o passo que faltava pra dentro do apartamento, e a porta fechou atrás com um clique baixo que soou alto demais. A respiração dele estava mais pesada agora, chegando perto do meu rosto.

— Eu não sei se isso é boa ideia — ele murmurou, mas não deu nenhum passo pra trás.

O ar entre a gente parecia ter ficado mais quente que o ar-condicionado conseguia esfriar. Ele estava tão perto que eu conseguia ver os pontos de suor no pescoço dele, o jeito que a camiseta colava no peito. Meu cheiro de sabonete misturava com o dele, e o zumbido do ar-condicionado parecia mais distante.

Ele ergueu uma mão, devagar, como se tivesse que pensar antes de tocar. Os dedos calejados roçaram minha cintura por cima da toalha, e eu senti o calor que vinha da palma dele contra a pele que ainda tava úmida.

— Você quer que eu vá embora agora? — ele perguntou, a voz saindo rouca.

— Não quero — respondi, e a toalha escorregou um centímetro no meu ombro.

Ele me puxou pela cintura antes que eu pudesse terminar a frase. A boca dele encontrou a minha num beijo que parecia ter ficado preso ali desde a primeira vez que ele subiu pra entregar. Eu senti o gosto dele misturado com o suor, quente e urgente, e minha mão subiu pelo peito dele por cima da camiseta, sentindo a textura molhada do tecido contra a pele.

A toalha começou a escorregar do meu corpo enquanto ele me apertava contra a parede da entrada. A cerâmica fria nas costas contrastava com o calor que vinha dele, e eu ouvi o som abafado da sacola de comida caindo no chão quando ele usou as duas mãos pra me segurar.

— Michele — ele falou contra minha boca, a voz grossa, e eu senti os dedos dele apertarem mais forte na minha cintura.

A toalha caiu até o quadril, prendendo entre a gente, e a mão dele desceu pela lateral do meu corpo, quente e grande contra a pele que ainda tava molhada do banho. Eu puxei ele mais perto, sentindo o peito dele subir e descer contra o meu, a respiração dele misturando com a minha.

— Léo — falei, rouca, e a toalha escorregou até o chão.

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