Eu ainda sentia a perna dele pressionando a minha por baixo da mesa do jantar quando resolvi responder a mensagem. O ar-condicionado do quarto soprava forte, mas mesmo assim o pescoço queimava, como se o calor tivesse subido da perna e ficado preso ali. Tirei os saltos e caminhei descalça no carpete, sentindo cada fibra áspera contra a sola do pé.
A blusa ainda guardava cheiro do perfume que eu tinha passado de manhã, misturado com o leve cheiro de café do jantar. Fui até o banheiro, lavei o rosto com água fria, passei a toalha devagar no pescoço. Quando voltei pro quarto, peguei o celular na mesinha e abri a conversa.
A mensagem dele ainda estava lá: “Se quiser repassar os números amanhã cedo, estou no 1207.” Eu li duas vezes, depois três, parando em cada palavra, como se precisasse confirmar que era pra mim. Meu polegar ficou pairando sobre o teclado, sem apertar nada.
Eu digitei “Subi. Quer repassar mesmo ou tem outra coisa em mente?”, apaguei tudo, comecei de novo, digitei a mesma coisa e mandei antes que pudesse pensar direito. O coração batia tão forte que eu ouvia o próprio pulso.
Fiquei olhando pro celular, esperando o visto azul aparecer. Nada. Só o relógio do hotel marcando 23:47. Eu me sentei na beira da cama, cruzei as pernas e desvirei, fiquei de pé de novo, caminhei até a janela e voltei.
Peguei a bolsa, passei um pouco de batom, desci o zíper do jeans só pra ajustar a cintura, subi de novo. O celular vibrou com a resposta dele: “Estou acordado.” Eu respondi “Tô subindo” e saí do quarto.
O corredor estava vazio. O ar-condicionado zumbia baixo, misturado com o som distante de uma porta de elevador abrindo e fechando. Apertei o botão e esperei, olhando pro painel de números que mudava devagar, sentindo o coração ainda acelerado no peito.
A porta se abriu e Gustavo apareceu de camisa social desabotoada no colarinho. Ele tinha passado a mão no cabelo, parecia que tinha tentado ajeitar e desistido no meio.
— Sempre direto ao ponto, Fernanda. Gosto disso em você.
Eu sorri, sem graça, olhando pro chão do corredor por um segundo. Entrei devagar, sentindo o carpete macio agora, diferente do áspero do meu quarto.
— No jantar você não tirou a perna. Eu fiquei molhada o resto da noite — falei, e logo mudei de assunto. — Mas os números de São Paulo não batem com o que mandaram ontem.
Ele fechou a porta. O ar-condicionado do quarto dele parecia mais silencioso que o meu.
— É verdade, mas a gente resolve isso amanhã — ele respondeu, a voz grave saindo baixa. — Você já olhou os e-mails que eu mandei mais cedo?
Eu assenti, mas meu olhar ficou preso nos ombros dele, largos sob a luz amarela do abajur. A camisa marcava o formato, e eu percebi que estava olhando tempo demais.
— Olhei sim, mas... — parei, ri de leve, desviando o olhar pro tapete. — Eu achei que ia demorar mais pra você responder minha mensagem.
O cheiro dele chegava até mim, loção pós-barba misturada com café. Eu respirei mais fundo sem querer, e ele reparou.
Ele colocou o notebook em cima da coberta, a tela piscando com a planilha. A gente sentou na cama, eu mais pra ponta, ele com as pernas esticadas, o peso fazendo o colchão afundar do lado dele. O ar-condicionado soprava direto na nuca, mas eu ainda sentia o calor subindo pela coluna.
Ele abriu a planilha e apontou pra uma linha que eu já tinha visto antes. A perna dele encostou na minha devagar, a lateral da calça dele roçando no meu jeans. Eu não me mexi. O calor da perna atravessava o tecido e ficava ali, quieto, como se ele tivesse resolvido testar até onde ia.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versão— Você sempre faz isso? — perguntei, sem tirar o olho da tela. — Deixa uma linha errada pra ver quem percebe primeiro?
Ele riu baixo, a voz saindo grave e curta. A barba por fazer brilhou de leve quando ele virou o rosto pra mim.
— Não. Mas eu gosto de ver quem repara nas coisas.
A mão dele ficou no teclado, os dedos grandes parados sobre as teclas. Eu olhei de novo pro ombro dele, largo, a camisa social ainda desabotoada no alto. O cheiro de loção pós-barba misturado com café ficava mais forte toda vez que ele respirava.
— Eu reparei que você não tirou a perna no jantar — falei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. — E que você ficou olhando pra minha boca quando eu falei da apresentação de São Paulo.
Ele não respondeu de imediato. A perna dele continuou encostada na minha, o peso firme, como se tivesse decidido que ia ficar ali. Eu senti o calor subir pelo pescoço de novo, a bochecha queimando, o ar-condicionado gelado soprando em vão.
O notebook ficou entre a gente, a tela refletindo o abajur amarelo. Eu percebi que a respiração dele estava mais lenta, mais pesada, e que eu estava segurando a minha sem perceber. O som distante de uma porta de elevador ecoou no corredor, abafado pela parede.
Ele olhou de novo pra tela, mas o canto da boca dele subiu de leve, como se soubesse que eu estava olhando pra ele agora, não pra planilha.
— E o que você achou disso tudo? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. — De eu não tirar a perna?
Eu respirei fundo, o cheiro dele entrando mais fundo nos pulmões. O notebook continuava ali, a planilha piscando, mas eu já tinha perdido o interesse nela.
O notebook ainda emitia aquela luz fria que não combinava com nada do que a gente tava sentindo. Gustavo fechou a tampa devagar, deixando a mão parada em cima do plástico como se precisasse de um segundo pra decidir o que vinha depois.
— No jantar eu não conseguia parar de pensar em você — ele falou, a voz saindo baixa, quase arrastada. — A perna que eu encostei, a forma como você respirava mais fundo toda vez que eu apertava.
Eu ri baixo, sem tirar os olhos dele, sentindo o peso da perna ainda ali, quente através da calça.
— Eu achei que ia conseguir focar na comida, mas toda hora eu lembrava de como você ficou me olhando quando eu falei de São Paulo.
Ele virou o corpo inteiro pra mim, o colchão afundando mais do lado. A respiração dele batia no meu rosto agora, quente, com cheiro de café misturado com aquela loção. Eu não me mexi. A distância entre a gente diminuiu até eu conseguir ver os fios grisalhos da barba por fazer.
Ele inclinou a cabeça, parou a um centímetro dos meus lábios. Eu senti o ar dele entrar e sair mais rápido. Meu queixo subiu sozinho, procurando o dele. Nenhum dos dois fechou os olhos.
O som do elevador ecoou de novo lá fora, abafado. Eu quase ri do susto, mas o riso morreu na garganta quando a boca dele finalmente encostou na minha. A barba raspou no queixo, a língua entrou sem pedir, quente e pesada. Eu respondi segurando o ombro dele, sentindo o músculo firme debaixo da camisa.
As mãos grandes dele desceram pelas minhas coxas, por cima do jeans, apertando devagar como se quisesse marcar o caminho. Eu puxei a camisa social pra fora da calça dele, os dedos escorregando no botão de cima, sentindo o peito dele subir e descer contra meu pulso.
Ele desceu o zíper do meu jeans devagar, o barulho do metal ecoando no quarto silencioso. Eu consegui tirar a camisa dele pelos ombros, o tecido caindo na coberta atrás dele. O ar-condicionado gelado bateu direto na pele dele agora exposta, mas o calor da mão dele na minha coxa queimava mais forte.
— Eu sabia que você ia subir — ele falou contra minha boca, a voz rouca. — Sabia desde o momento que você respondeu aquela mensagem.
Eu respirei fundo, o peito apertado, o jeans já aberto no cós, a camisa dele jogada no chão. O notebook ficou esquecido no canto da cama enquanto as mãos dele apertavam minha coxa mais forte, subindo por cima do jeans agora.
Ele puxou o cós da minha blusa pra cima devagar, os dedos grandes escorregando na pele da cintura. Eu soltei o botão da calça dele com uma mão só, sentindo o zíper subir um pouco quando o tecido cedeu. O cheiro dele estava mais forte agora, loção misturada com suor leve, e eu respirei fundo contra o pescoço dele, sentindo a barba por fazer roçar na minha bochecha.
A respiração dele ficou presa quando eu passei a mão por cima da cueca, sentindo o volume duro por baixo do tecido. Ele puxou minha blusa mais pra cima, os dedos parando na curva do sutiã, apertando sem tirar nada ainda. O ar-condicionado soprava gelado na nossa pele quente, mas nenhum dos dois parou pra pensar nisso.

