Acordei com o corpo já quente e inquieto, sabendo que ele viria buscar as coisas.
A cozinha ainda cheirava a café queimado, a geladeira fazia aquele zunzum constante que eu nem percebia mais. Eu andava de um lado pro outro com o short jeans apertado na cintura, a blusa fina grudando nas costas por causa do suor de Manaus. Toda vez que eu parava, o tecido roçava onde eu já tava sensível.
Separei os livros dele primeiro, depois as canecas que ele sempre dizia que eram dele. O short jeans marcava cada movimento, a costura passando entre as pernas quando eu me agachava. Eu tentava me concentrar nas caixas, mas o cheiro dele ainda tava no ar da sala, mesmo depois de tanto tempo.
Olhei o celular de novo. Nada. Eu sabia que ele ia chegar, não precisava mandar nada. Guardei o aparelho no bolso do short e voltei pra cozinha, abrindo a janela só pra dar uma renovada no ar.
A campainha tocou mais cedo do que eu esperava. Meu peito apertou de um jeito que eu não queria admitir. Fui até a porta devagar, respirando fundo antes de abrir.
— Anderson, você podia ter avisado antes, tô separando tudo desde cedo.
Ele tava parado no corredor, ombros largos enchendo a porta, a barba por fazer marcando o queixo. O perfume de sempre veio junto com ele, aquele cheiro que eu conhecia de cor. Eu dei um passo pro lado pra ele entrar, sem olhar direto pra cara dele.
— Desculpa. Tava com pressa.
A porta fechou atrás dele com um clique baixo. A gente ficou ali por um segundo, o som da geladeira enchendo o silêncio. Eu me virei primeiro, indo até a pilha de caixas que eu tinha deixado na sala.
A caixa de livros pesava mais do lado direito e eu precisei ajustar o jeito que segurava, o papelão roçando no meu quadril. Anderson não se mexeu. Ficou ali encostado no batente, braços cruzados, olhando o apartamento como se ainda fosse dele.
— Tá quente hoje — ele comentou, sem tirar os olhos de mim.
Eu ri baixo, sem graça, e abri a janela da sala um pouco mais, mesmo sabendo que não ia fazer diferença. O cheiro de café queimado ainda tava ali, misturado com o perfume dele que invadiu tudo de novo.
— Você sempre reclamou do calor. Eu que me acostumei.
Ele fez aquele som de quem não concorda nem discorda e mudou o peso do corpo. Os olhos dele desceram até o short jeans, subiram de novo, pararam na minha boca por um segundo a mais do que devia. Eu fingi que não percebi e virei pra caixa de novo.
— A geladeira tá fazendo aquele barulho de novo — falei, só pra falar alguma coisa. — Acho que vai acabar morrendo.
— Manda arrumar. Ou troca.
Eu olhei por cima do ombro, e ele tava me encarando de novo. Não sorriu. Só ficou olhando, a barba por fazer marcando o queixo, a mão grande segurando o próprio braço. Eu segurei o olhar por mais tempo que o necessário também, o calor subindo pelo pescoço. Depois virei de volta pra caixa e continuei empilhando.
A caixa de canecas pesava mais do que eu esperava. Eu a segurei com as duas mãos e andei até a cozinha, o papelão roçando na minha barriga. Anderson veio atrás, o cheiro do perfume dele preenchendo o corredor estreito, e eu sabia que ele estava me olhando pelo jeito como os passos dele demoravam.
Na cozinha, a luz da janela batia direto na pia. Eu coloquei a caixa em cima da mesa e comecei a tirar as canecas uma por uma, o frio da cerâmica contra a palma. Ele ficou do outro lado, abrindo a porta do armário, e por um segundo a gente ficou ali sem dizer nada, só o zunzum da geladeira enchendo o espaço.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versão— Aquele perfume que você usa ainda tá grudado nas coisas dele. Eu lavei tudo, mas parece que não sai.
Ele soltou uma risada curta, sem tirar os olhos da prateleira.
— É o mesmo de sempre. Você reclamava que eu gastava demais com isso.
Eu me virei pra olhar ele e acabei reparando na barba por fazer marcando o maxilar, a linha grossa que descia até o pescoço. O cheiro do perfume subiu de novo quando ele se inclinou pra pegar uma panela mais embaixo, e eu fiquei um segundo olhando o movimento dos ombros dele esticando a camisa.
Ele se endireitou, segurando a panela com uma mão só, e eu vi a linha do suor brilhando logo abaixo da orelha. Eu desci os olhos sem querer, parei nos dedos dele em volta do cabo de alumínio, largos, firmes, e precisei desviar rápido.
— Lembra daquela panela que a gente queimou tentando fazer feijoada no Natal? — ele falou, virando a panela na mão como se fosse a mesma. — Você ficou brava porque eu tinha deixado o fogo alto.
Eu ri baixo, pegando uma caneca e passando o dedo na borda rachada.
— E você disse que ia consertar. Até hoje tá do mesmo jeito.
Ele colocou a panela na bancada e ficou olhando pra mim por cima da mesa. O olhar dele demorou na minha boca, desceu pro colo da blusa fina, voltou. Eu segurei a caneca com mais força do que precisava, o coração batendo mais rápido no peito.
— Você tá com o cabelo mais curto — ele disse, a voz mais baixa agora. — Ficou bom.
Eu passei a mão no pescoço, sem saber o que responder, e virei de volta pra caixa. O cheiro do café queimado ainda pairava leve no ar, misturado com o perfume dele, e eu senti o calor subir pela nuca enquanto ele continuava me olhando.
— A gente brigava por causa disso até quando morava junto. — E ainda briga — falei, virando a frigideira na mão como se fosse a primeira vez que via. — Você nunca usou, por que quer agora?
Ele deu a volta na mesa. Eu senti o perfume dele ficando mais forte, misturado com o cheiro de café queimado que ainda saía da pia.
— Me dá logo. Eu sei que você não usa.
Segurei a frigideira contra o peito. Ele parou na minha frente, mais perto do que precisava. A respiração dele batia no meu rosto, e eu conseguia ver o suor brilhando no pescoço dele, logo acima da gola da camisa.
— Não vou te dar.
Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo. Eu vi os olhos dele descendo pro meu colo, subindo de novo. O zunzum da geladeira parecia mais alto do que antes.
— Você sempre foi teimosa — ele murmurou, a voz mais rouca.
A mão dele veio devagar, os dedos grandes fechando em volta do meu pulso. A pegada era firme, a palma dele cobrindo quase todo o meu braço. Eu não tirei. O pulso dele pulsava contra a minha pele.
— Anderson… — falei baixo, sem força na voz.
Ele puxou a frigideira devagar, sem soltar meu pulso. O metal frio raspou na minha barriga quando ele tirou, e eu senti o ar gelado da cozinha batendo na pele exposta. A respiração dele ficou mais pesada, e eu vi o maxilar dele travando.
— Gostoso — ele disse, só isso, rouco.
A gente ficou ali, o pulso dele apertando o meu, os corpos quase colados, o perfume dele subindo da pele. Meu short jeans estava marcado entre as pernas, e eu sabia que ele via. Ele olhou pra baixo, demorou, subiu devagar até minha boca.
Eu senti o coração batendo forte no peito. A mão dele apertou mais no meu pulso, e eu vi os dedos dele brancos de força. A respiração dele batia na minha boca agora. Eu abri os lábios, fechei os olhos, esperando.

