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Última caixa

por Tati Fontes · 28 de set. de 2026

Acordei com o corpo já quente e inquieto, sabendo que ele viria buscar as coisas.

A cozinha ainda cheirava a café queimado, a geladeira fazia aquele zunzum constante que eu nem percebia mais. Eu andava de um lado pro outro com o short jeans apertado na cintura, a blusa fina grudando nas costas por causa do suor de Manaus. Toda vez que eu parava, o tecido roçava onde eu já tava sensível.

Separei os livros dele primeiro, depois as canecas que ele sempre dizia que eram dele. O short jeans marcava cada movimento, a costura passando entre as pernas quando eu me agachava. Eu tentava me concentrar nas caixas, mas o cheiro dele ainda tava no ar da sala, mesmo depois de tanto tempo.

Olhei o celular de novo. Nada. Eu sabia que ele ia chegar, não precisava mandar nada. Guardei o aparelho no bolso do short e voltei pra cozinha, abrindo a janela só pra dar uma renovada no ar.

A campainha tocou mais cedo do que eu esperava. Meu peito apertou de um jeito que eu não queria admitir. Fui até a porta devagar, respirando fundo antes de abrir.

— Anderson, você podia ter avisado antes, tô separando tudo desde cedo.

Ele tava parado no corredor, ombros largos enchendo a porta, a barba por fazer marcando o queixo. O perfume de sempre veio junto com ele, aquele cheiro que eu conhecia de cor. Eu dei um passo pro lado pra ele entrar, sem olhar direto pra cara dele.

— Desculpa. Tava com pressa.

A porta fechou atrás dele com um clique baixo. A gente ficou ali por um segundo, o som da geladeira enchendo o silêncio. Eu me virei primeiro, indo até a pilha de caixas que eu tinha deixado na sala.

A caixa de livros pesava mais do lado direito e eu precisei ajustar o jeito que segurava, o papelão roçando no meu quadril. Anderson não se mexeu. Ficou ali encostado no batente, braços cruzados, olhando o apartamento como se ainda fosse dele.

— Tá quente hoje — ele comentou, sem tirar os olhos de mim.

Eu ri baixo, sem graça, e abri a janela da sala um pouco mais, mesmo sabendo que não ia fazer diferença. O cheiro de café queimado ainda tava ali, misturado com o perfume dele que invadiu tudo de novo.

— Você sempre reclamou do calor. Eu que me acostumei.

Ele fez aquele som de quem não concorda nem discorda e mudou o peso do corpo. Os olhos dele desceram até o short jeans, subiram de novo, pararam na minha boca por um segundo a mais do que devia. Eu fingi que não percebi e virei pra caixa de novo.

— A geladeira tá fazendo aquele barulho de novo — falei, só pra falar alguma coisa. — Acho que vai acabar morrendo.

— Manda arrumar. Ou troca.

Eu olhei por cima do ombro, e ele tava me encarando de novo. Não sorriu. Só ficou olhando, a barba por fazer marcando o queixo, a mão grande segurando o próprio braço. Eu segurei o olhar por mais tempo que o necessário também, o calor subindo pelo pescoço. Depois virei de volta pra caixa e continuei empilhando.

A caixa de canecas pesava mais do que eu esperava. Eu a segurei com as duas mãos e andei até a cozinha, o papelão roçando na minha barriga. Anderson veio atrás, o cheiro do perfume dele preenchendo o corredor estreito, e eu sabia que ele estava me olhando pelo jeito como os passos dele demoravam.

Na cozinha, a luz da janela batia direto na pia. Eu coloquei a caixa em cima da mesa e comecei a tirar as canecas uma por uma, o frio da cerâmica contra a palma. Ele ficou do outro lado, abrindo a porta do armário, e por um segundo a gente ficou ali sem dizer nada, só o zunzum da geladeira enchendo o espaço.

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— Aquele perfume que você usa ainda tá grudado nas coisas dele. Eu lavei tudo, mas parece que não sai.

Ele soltou uma risada curta, sem tirar os olhos da prateleira.

— É o mesmo de sempre. Você reclamava que eu gastava demais com isso.

Eu me virei pra olhar ele e acabei reparando na barba por fazer marcando o maxilar, a linha grossa que descia até o pescoço. O cheiro do perfume subiu de novo quando ele se inclinou pra pegar uma panela mais embaixo, e eu fiquei um segundo olhando o movimento dos ombros dele esticando a camisa.

Ele se endireitou, segurando a panela com uma mão só, e eu vi a linha do suor brilhando logo abaixo da orelha. Eu desci os olhos sem querer, parei nos dedos dele em volta do cabo de alumínio, largos, firmes, e precisei desviar rápido.

— Lembra daquela panela que a gente queimou tentando fazer feijoada no Natal? — ele falou, virando a panela na mão como se fosse a mesma. — Você ficou brava porque eu tinha deixado o fogo alto.

Eu ri baixo, pegando uma caneca e passando o dedo na borda rachada.

— E você disse que ia consertar. Até hoje tá do mesmo jeito.

Ele colocou a panela na bancada e ficou olhando pra mim por cima da mesa. O olhar dele demorou na minha boca, desceu pro colo da blusa fina, voltou. Eu segurei a caneca com mais força do que precisava, o coração batendo mais rápido no peito.

— Você tá com o cabelo mais curto — ele disse, a voz mais baixa agora. — Ficou bom.

Eu passei a mão no pescoço, sem saber o que responder, e virei de volta pra caixa. O cheiro do café queimado ainda pairava leve no ar, misturado com o perfume dele, e eu senti o calor subir pela nuca enquanto ele continuava me olhando.

— A gente brigava por causa disso até quando morava junto. — E ainda briga — falei, virando a frigideira na mão como se fosse a primeira vez que via. — Você nunca usou, por que quer agora?

Ele deu a volta na mesa. Eu senti o perfume dele ficando mais forte, misturado com o cheiro de café queimado que ainda saía da pia.

— Me dá logo. Eu sei que você não usa.

Segurei a frigideira contra o peito. Ele parou na minha frente, mais perto do que precisava. A respiração dele batia no meu rosto, e eu conseguia ver o suor brilhando no pescoço dele, logo acima da gola da camisa.

— Não vou te dar.

Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo. Eu vi os olhos dele descendo pro meu colo, subindo de novo. O zunzum da geladeira parecia mais alto do que antes.

— Você sempre foi teimosa — ele murmurou, a voz mais rouca.

A mão dele veio devagar, os dedos grandes fechando em volta do meu pulso. A pegada era firme, a palma dele cobrindo quase todo o meu braço. Eu não tirei. O pulso dele pulsava contra a minha pele.

— Anderson… — falei baixo, sem força na voz.

Ele puxou a frigideira devagar, sem soltar meu pulso. O metal frio raspou na minha barriga quando ele tirou, e eu senti o ar gelado da cozinha batendo na pele exposta. A respiração dele ficou mais pesada, e eu vi o maxilar dele travando.

— Gostoso — ele disse, só isso, rouco.

A gente ficou ali, o pulso dele apertando o meu, os corpos quase colados, o perfume dele subindo da pele. Meu short jeans estava marcado entre as pernas, e eu sabia que ele via. Ele olhou pra baixo, demorou, subiu devagar até minha boca.

Eu senti o coração batendo forte no peito. A mão dele apertou mais no meu pulso, e eu vi os dedos dele brancos de força. A respiração dele batia na minha boca agora. Eu abri os lábios, fechei os olhos, esperando.

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