Cheguei na casa dela com o corpo ainda formigando do cansaço do bar e o coração batendo forte de saber que estávamos sozinhas.
Tirei o dedo do botão assim que apertei, e o som da campainha ficou ecoando lá dentro. O peito apertou, quente e pesado, como se o cansaço do turno tivesse virado outra coisa, algo que subia pela garganta e apertava o meio das pernas só de imaginar a porta abrindo.
Rafa apareceu descalça, short cinza folgado, regata velha branca que marcava o sutiã preto por baixo. O cabelo curto tava bagunçado de um jeito que dava pra ver que ela tinha passado a mão várias vezes, e a tatuagem dos braços se mexeu quando ela encostou na porta pra me dar espaço.
Entrei e o cheiro de madeira velha misturado com cigarro bateu logo, junto com o som baixo de um vinil arranhando alguma coisa lenta. A sala tava um caos organizado: caixas de som empilhadas, cabos enrolados no tapete áspero que roçava nos meus pés descalços. O calor da tarde entrava pela janela aberta, grudando a roupa no corpo.
Tirei o celular do bolso por reflexo e abri o post dela, aquela foto borrada do espelho com o short e a regata de sempre, o texto escrito à mão feliz aniversário pra mim. Digitei “tá linda” e parei, o dedo pairando por cima do enviar enquanto via o vinil girando devagar na mesinha de canto.
Apaguei a mensagem inteira com três toques. Guardei o celular no bolso e respirei fundo, sentindo o gosto de fritura que ainda tava na minha boca misturado com a vontade de falar o que eu não tinha coragem de escrever.
— Oi, parabéns de novo — falei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. — Cheguei cedo pra te ajudar com o som como você pediu.
Rafa foi pro canto da sala onde o som tava desmontado, pegou um cabo enrolado no tapete e começou a desenrolar devagar. Eu fui atrás, fiquei do outro lado da caixa de som maior, olhando ela conectar os fios como se isso fosse a única coisa que importava.
— Que bom que veio, Tainá. Ontem no bar você pegou rápido o jeito de mixar, né? — ela disse sem tirar os olhos dos plugues.
— Foi você que guiou minha mão a noite inteira... fiquei pensando nisso o dia todo — respondi, tentando soar casual enquanto enrolava o cabo que ela me passou.
Rafa deu uma risadinha baixa, daqueles que parecem que vão virar piada, mas não viram. O vinil arranhou um pouco mais alto, como se o próprio disco tivesse sentido o clima mudar.
— Eu não guiei por muito tempo não. Você já tava pegando o jeito sozinha. — Ela conectou o último fio, endireitou o corpo e por um segundo parou de mexer, o olhar caindo no meu pescoço suado da caminhada até ali.
Eu me abaixei pra ajustar o volume do aparelho, sentindo o calor úmido da janela entrar mais forte. Quando levantei, ela ainda tava olhando. Não desviou. Eu segurei o olhar um pouco mais, só pra ver até onde ia.
Rafa passou a mão no cabelo curto, bagunçando mais ainda, e o braço tatuado brilhou com a luz que entrava. A regata dela marcava o sutiã preto quando ela respirou fundo, como se tivesse esquecido de fazer isso antes.
— A gente podia testar o som agora — ela falou, a voz rouca de sempre, mas com algo diferente no jeito de dizer. — Antes que o pessoal comece a chegar.
Eu assenti, mas nenhum de nós se mexeu. O olhar dela ainda tava em mim, e eu deixei ficar assim, sentindo o tapete áspero nos pés e o cheiro de cigarro misturado com madeira velha enchendo o ar entre a gente.
Rafa se inclinou pra frente e levantou uma das caixas de som menores, os músculos dos antebraços marcando embaixo da tinta quando ela ajustou o peso contra o quadril. Eu não conseguia parar de olhar a linha preta que subia até o cotovelo dela, como se o desenho se mexesse junto com a respiração.
— Sabe — ela falou, parando no meio do caminho com a caixa na mão — toda vez que passo no balcão eu encosto em você de propósito.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versãoO vinil deu um arranhão baixo quando o disco girou mais uma vez. Eu segurei a respiração, tentando achar alguma resposta que não parecesse desesperada, mas o que saiu foi só um som rouco que mal deu pra reconhecer como riso.
— Eu percebi... — falei devagar, a voz saindo mais baixa que o normal. — E hoje a festa começa só daqui a duas horas.
Ela deixou a caixa no chão com mais cuidado que o necessário, os dedos demorando no plástico preto. Quando se endireitou de novo, o olhar dela não foi pra minha cara logo de cara. Desceu até o decote da minha blusa, parou um segundo, voltou.
Eu me virei pra fingir que arrumava o vinil na mesinha, mas o disco tava exatamente onde eu tinha deixado. Meu dedo ficou circulando a borda do aparelho sem motivo nenhum, só pra ter alguma coisa pra fazer que não fosse ficar encarando o jeito que o short dela marcava na coxa quando ela mudou o peso de perna.
Rafa deu dois passos pra trás e parou encostada na parede, os braços cruzados de um jeito que levantava a regata um pouco mais. O calor que entrava pela janela tava fazendo o suor grudar na minha nuca, e eu sentia que ela reparou nisso também.
— Você sempre fica tão vermelha quando alguém te encara assim? — ela perguntou, a voz com aquela rouquidão que parecia ter ficado mais grossa. — Ou é só quando a gente tá sozinha.
Eu passei a mão no cabelo, puxando um pouco pra sentir alguma coisa diferente do calor que subia no meu peito. O tapete áspero roçava nos meus pés descalços quando eu mudei o peso, e eu percebi que ela tava olhando pra isso também, pra maneira como eu me remexia sem conseguir ficar parada.
— Depende — respondi, sem conseguir tirar o sorriso da boca. — De quem tá encarando.
Ela mordeu o canto do lábio inferior, os dentes aparecendo só um segundo antes de soltar. O ar entre a gente tava tão denso que parecia que dava pra cortar, e nenhum de nós se mexia, como se o primeiro que desse um passo fosse quebrar alguma coisa que a gente nem tinha começado ainda.
Rafa se aproximou por trás pra mexer no cabo que eu tinha acabado de conectar. A respiração dela bateu quente na minha nuca, mais pesada que o ar da sala. Eu fiquei parada, o dedo ainda no botão do aparelho, sentindo cada expiração roçar na pele.
— Você tá tremendo — ela murmurou, a voz rouca quase encostando na minha orelha.
Eu soltei o ar devagar, tentando segurar o resto. O cheiro dela subiu forte, mistura de cigarro frio com algo doce que não conseguia identificar. Meu corpo inclinou um centímetro pra trás antes que eu percebesse.
Rafa pegou minha mão e colocou em cima do aparelho, os dedos cobrindo os meus como se fosse a noite anterior no bar. Só que agora não tinha barulho de gente, não tinha desculpa. O polegar dela fez um círculo lento no dorso da minha mão.
— Eu lembro disso — ela falou baixo. — Lembro do jeito que você parou de respirar quando eu te ensinei.
Eu virei o rosto devagar, quase sem querer. O lábio dela encostou no canto da minha boca primeiro, leve, como se estivesse testando se eu ia puxar pra trás. Eu não puxei. O segundo beijo veio mais firme, a boca dela abrindo devagar contra a minha.
As mãos dela desceram pela minha cintura, os dedos largos abrindo caminho por cima da blusa. Eu apertei o corpo contra o dela, sentindo o tecido fino da regata grudar no suor. O sutiã preto marcava contra meu peito quando ela respirou fundo.
— Rafa — falei, a voz saindo rouca no meio do beijo.
Ela respondeu com um som baixo que vibrou na minha boca, os dedos apertando minha cintura com mais força. Eu passei os braços pelo pescoço dela, puxando mais perto, sentindo as tatuagens roçarem na minha pele quando ela mudou o peso.
As mãos dela desceram devagar até a barra da minha saia. Os dedos grossos subiram por baixo do tecido, subindo devagar pela parte de trás da minha coxa. Meu corpo inteiro tensionou quando ela parou, a respiração dela presa contra meu pescoço.
— A gente ainda tem tempo — ela falou, os dedos parando na curva onde a coxa virava bunda. — Antes de todo mundo chegar.
Eu encostei a testa na dela, sentindo o cabelo curto roçar na minha pele. A mão dela apertou mais, puxando meu quadril contra o dela, e eu senti o calor dela através da regata fina, o corpo todo reagindo ao aperto.

