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Dedos na coluna

por Fê Nogueira · 28 de set. de 2026

Terminei o texto do dia e o corpo relaxou na cadeira do coworking, mas a cabeça já tava no convite que ela tinha feito. A blusa colada nas costas suadas me lembrava o quanto eu tava tensa o dia todo. Tentei me mexer, mas o cansaço pesava nos ombros, e o cheiro de antisséptico que subia da mesa de desenho junto com algo mais doce me deixava inquieta.

Peguei o celular e abri o story dela. O estúdio aparecia vazio, a lâmpada de mesa ainda ligada, o chão de concreto refletindo a luz. Fiquei olhando o vídeo por mais tempo do que precisava, o polegar paralisado sobre a tela.

Digitei um emoji de confirmação. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei outra vez. O ar-condicionado soprava direto na nuca, gelado demais, e um arrepio desceu que não combinava com o calor que subia no peito.

A resposta dela chegou rápido. Só o horário, sem rodeio. Olhei o relógio, contei os minutos que faltavam, e o estômago deu um pequeno salto.

— Oi, cheguei, tá vazio mesmo?

A voz dela soou baixa do outro lado da porta, quase encoberta pelo zumbido da geladeira. Abri devagar, os pés descalços sentindo o frio do piso.

— Quase. Só eu e a lâmpada — ela respondeu, e vi o cabelo raspado do lado esquerdo, o brilho da tatuagem no braço quando ela segurou a maçaneta.

O desenho que eu tinha feito no meio da tarde ainda estava preso na prancheta, os traços meio borrados de tanto eu ter passado a mão. Joana parou do outro lado da mesa, inclinou um pouco o corpo pra frente e olhou pra mim do mesmo jeito que tinha olhado no story, demorando o suficiente pra eu sentir o ar-condicionado gelado na nuca de novo.

— Depois do expediente a gente fica com a cabeça vazia, né? — ela falou, puxando uma folha que estava embaixo de outra. O papel fez barulho seco contra a madeira.

Ri baixo, sem graça, e fiquei mexendo o canto da blusa entre os dedos. O cheiro de antisséptico junto com o perfume dela parecia mais forte agora que a porta estava fechada.

— Nossa, esse aqui ficou lindo, você que fez? — perguntei, apontando pro desenho que ela acabara de mostrar, tentando não encarar direto o jeito que o cabelo raspado deixava o pescoço dela à mostra.

Ela deu uma risadinha curta e mudou de folha, como se precisasse de desculpa pra continuar falando.

— Fiz ontem à noite. Não consegui dormir, então vim pra cá. O coworking é bem vazio depois das nove, só o zumbido da geladeira pra fazer companhia.

Me aproximei mais da mesa pra ver melhor, sentindo o calor da lâmpada batendo no ombro. Ela virou a folha pra mim, os dedos marcando a borda, e notei que as tatuagens subiam até o cotovelo, linhas pretas grossas que pareciam mover quando ela respirava.

— E você, o que te trouxe até aqui tão tarde? — ela perguntou, sem tirar os olhos do desenho, mas com aquela voz que parecia estar perguntando outra coisa.

Abri a boca pra responder, mas o olhar dela subiu até o meu, demorando na boca, descendo pro colarinho da blusa, voltando pros olhos. Engoli em seco e ri de novo, mais sem graça ainda, sentindo o ar-condicionado gelar o suor que começava a descer pelas costas.

O cheiro de tinta fresca se juntou com o sabonete que ela usou. Fechei os olhos um segundo só pra sentir aquilo, e quando abri, Joana tinha mudado de posição atrás da mesa, inclinada pra frente pra me mostrar outro papel.

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— Eu fico acordada até tarde às vezes, mas ontem foi diferente. Tava tentando fazer um traço que eu nunca conseguia sair direito e aí resolvi vir pra cá pra ver se o ambiente ajudava — ela contou, a voz mais baixa que o barulho do ar-condicionado. — Acabei ficando até quase de madrugada, olhando pra parede e pensando se valia a pena continuar.

Ri, porque parecia conversa de quem não queria parar de falar. Ela riu junto, um riso curto, e virou outra folha na prancheta. O movimento fez a manga subir um pouco, mostrando mais da tatuagem que subia pelo braço.

— E aí, você já fez desenho que te prendeu assim? — ela perguntou, olhando pra mim por cima do papel.

Balancei a cabeça, sentindo o calor da lâmpada ainda no ombro. O zumbido da geladeira parecia mais alto agora, preenchendo o silêncio que ficou entre nós.

— Fiz um ano passado. Tava tão presa naquele desenho que esqueci de comer. Quando lembrei, já era de madrugada e eu tava com fome e com sono ao mesmo tempo — contei, puxando o cabelo pra trás. — Acabei voltando pro lugar pra terminar, igual você.

Ela assentiu, os olhos demorando na minha boca antes de voltar pro desenho. O papel áspero rangeu quando ela o arrumou na mesa. Mexi no lugar, sentindo o concreto frio nos pés e o ar gelado descendo pelas costas de novo.

— Sabe o que é engraçado? — ela começou, a voz quase arrastada. — Eu sempre acho que vou ficar só uma hora e acabo perdendo a noção do tempo. Aí chego em casa e fico pensando no que eu poderia ter feito diferente no desenho.

Concedi, sem saber bem o que responder, porque o jeito dela falar parecia estar dizendo outra coisa. O perfume dela ficou mais forte quando ela se inclinou pra pegar uma caneta, o braço passando perto do meu sem tocar.

— E você? O que te prendeu aqui hoje? — ela perguntou, a caneta girando entre os dedos ágeis. — Porque eu vi que você ficou olhando o story mais tempo que o normal.

Senti o rosto esquentar, mas não desviei o olhar. O ar-condicionado soprou de novo, gelando a nuca, e engoli em seco, sem conseguir encontrar uma resposta que não parecesse óbvia demais.

O silêncio ficou maior depois que respondi, e Joana abaixou o olhar pra prancheta como quem ainda não tinha decidido o que fazer. O ar-condicionado soprava sem parar, gelando o suor que descia pelas minhas costas.

Ela ergueu o desenho de novo e o virou pra mim, os dedos marcando a borda do papel. Me aproximei mais da mesa, sentindo o calor da lâmpada batendo no ombro nu que a blusa curta deixava à mostra.

— Relaxa, vou só passar o dedo pra você sentir onde ia ficar — ela disse, a voz baixa, quase encoberta pelo zumbido da geladeira.

Levantei os braços e puxei a blusa por cima da cabeça, o tecido roçando a pele quente. A blusa caiu no chão de concreto com um barulho macio, e o ar gelado me acertou direto nas costas.

Joana deu a volta na mesa e parou bem atrás de mim, perto o bastante pra eu sentir a respiração dela roçando na nuca. O cheiro de sabonete e antisséptico ficou mais forte, junto com algo doce que saía dela.

O dedo dela desceu pela coluna, traçando uma linha reta que parecia demorar mais que o necessário. Parou na cintura, onde a saia começava, e ficou ali, pressionando só o bastante pra eu sentir o calor da pele dela contra a minha.

Virei o rosto, quase por impulso, e as bocas se encontraram antes de eu pensar no que estava fazendo. O beijo foi quente, com gosto de café e um pouco de urgência, o som úmido das nossas línguas se misturando ao zumbido constante da geladeira.

As mãos dela desceram até os quadris e apertaram por cima da saia, os dedos marcando a pele por baixo do tecido fino. Senti o coração bater mais forte, a respiração presa no peito, o ar-condicionado gelando o suor que escorria entre os seios.

Ela apertou mais os quadris, puxando meu corpo de encontro ao dela, e senti o calor dela através da roupa, o cheiro dela invadindo tudo. A respiração dela ficou mais pesada no meu pescoço, as mãos ainda apertando, os dedos traçando círculos pequenos por cima da saia.

— Tira mais — ela falou, rouca, a boca encostada na minha orelha.

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