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Recaída no asfalto

por Marina L. · 28 de set. de 2026

Cheguei ao casamento com o corpo todo travado de um dia longo no escritório. Os ombros doíam de ficar curvada sobre a mesa, e cada movimento da cabeça parecia arrastar um peso que eu carregava desde manhã. Meu peito apertava só de pensar em pisar ali, como se o salão guardasse alguma coisa que eu tinha deixado pra trás.

A chuva tinha começado forte enquanto eu estacionava. O cheiro de terra molhada entrava pelas janelas entreabertas, misturado com o perfume doce que eu passei no pescoço antes de sair. Fiquei sentada um pouco mais dentro do carro, olhando o para-brisa embaçado e ouvindo o barulho constante lá fora. Tinha gente rindo na entrada do salão, mas eu não conseguia me mexer.

Quando finalmente desci, o ar úmido bateu no meu rosto. Vi ele de longe, de terno escuro, encostado na porta de vidro que dava pro salão. As olheiras pareciam mais fundas do que eu lembrava, e a barba por fazer marcava o queixo. Meu coração deu um tranco que doeu.

Eu fiquei parada na pista, mexendo o pé no ritmo da música lenta. Ele apareceu do lado, devagar, como quem não tem certeza se deve se aproximar.

— Desculpa pelo que eu fiz, de verdade — ele falou baixo, quase abafado pelo som do baixo na caixa de som.

O salão estava cheio, mas parecia que ninguém percebia a gente ali. Eu respirei fundo e olhei pra ele, tentando achar o que dizer sem que a voz saísse falhando. A luz dos postes entrava pela janela grande e refletia nas gotas que escorriam no vidro. O cheiro de chuva ficava mais forte cada vez que a porta abria.

A porta do salão abriu de novo e um casal passou por nós. Eu olhei rápido pra eles, depois voltei o olhar pra Théo. A luz do poste batia na lateral do rosto dele, marcando aquelas olheiras que pareciam mais fundas que antes.

— Tá com cara de quem dormiu pouco — falei, o tom saindo mais baixo do que eu queria.

Ele deu um sorrisinho de lado, como se a frase tivesse acertado em cheio. Passou a mão pelo cabelo e desviou o olhar por um segundo.

— Trabalho. A gente tá todo mundo correndo atrás de coisa que não acaba — respondeu.

Eu balancei a cabeça, concordando sem saber direito o que dizer em seguida. Meu olhar baixou pro terno dele. O tecido marcava os ombros de um jeito que eu não lembrava ter visto antes. Parecia mais largo que o corpo, como se o tempo tivesse encolhido ele por dentro.

— Esse terno te deixa sério — comentei, tentando brincar.

Ele olhou pra mim de novo, e dessa vez o olhar ficou. Desceu devagar pelo vestido, parando onde o tecido apertava na cintura. Eu senti o calor subir pro rosto, mas não me mexi.

— Você sempre soube que ia usar ele um dia desses — falou, a voz mais rouca que antes.

Eu sorri sem graça, mordi o canto do lábio e olhei pro chão. A chuva batia forte no teto do salão, e eu fiquei ouvindo o som pra não ter que responder logo. Quando levantei a cabeça, o olhar dele ainda estava em mim, como se esperasse alguma coisa que eu não sabia como dar.

A gente ficou quieta um segundo, só respirando o cheiro de chuva que entrava pela porta aberta. Meu vestido verde pesava na pele, a seda colada onde o calor subia. Théo olhou pro salão lotado e depois pra pista molhada lá fora.

— Vem pro carro comigo — ele falou, a voz baixa, quase engolida pelo baixo da música. — A chuva tá caindo, mas aqui dentro a gente conversa melhor.

Eu ri sem graça, o tipo de riso que sai quando a gente não sabe se tá brincando ou pedindo. Olhei pro salão, pros casais que dançavam sem olhar pra gente. Meu salto batia no chão molhado enquanto a gente caminhava pro estacionamento, o ar úmido batendo no rosto.

O carro dele estava mais pra trás, longe dos postes mais fortes. Quando ele abriu a porta do passageiro, o couro frio do banco tocou minha coxa por baixo do vestido. Eu entrei devagar, sentindo o cheiro de madeira e suor que vinha dele, misturado com o perfume antigo que eu tinha passado mais cedo.

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Ele ligou o carro só pra acender o som baixo e fechou a porta. A chuva batia no teto e no para-brisa como se quisesse entrar. O ar ficou quente rápido, úmido, como se o carro virasse uma bolha separada do casamento.

— Ainda sinto aquele aperto quando te vejo, sabia? — falei, olhando pro painel iluminado, sem encarar ele. — Tipo... dá vontade de fugir e de ficar ao mesmo tempo.

Théo encostou o braço no banco atrás de mim, sem me tocar. O cheiro dele ficou mais forte, madeira misturada com o suor do dia inteiro. Eu vi as olheiras dele na luz fraca dos postes, as mãos grandes descansando no volante.

— A gente podia ficar aqui um pouco — ele disse, a voz rouca de quem não dorme direito. — Só... conversar. Como se o tempo tivesse voltado e a gente não tivesse estragado tudo.

Eu virei a cabeça devagar. O olhar dele estava no meu pescoço, onde o perfume doce misturava com o cheiro da chuva. Meu coração batia forte, o vestido colando nas costas. O som da chuva batia no vidro como um tambor, marcando o tempo que a gente não ousava quebrar.

— Você tá diferente — comentei, baixinho. — Mais... cansado. Mas ainda é você.

Ele sorriu de lado, o tipo de sorriso que não chega nos olhos. A barba por fazer marcava o queixo, e eu quis passar o dedo ali, mas fiquei com as mãos no colo, sentindo o calor subir pela barriga. O carro cheirava a gente, a madeira, a suor, a chuva velha.

— Você também — ele respondeu, olhando pro meu colo sem disfarçar. — Só que agora eu sei o que tô perdendo.

A gente ficou quieta de novo, respirando o mesmo ar quente. O som da chuva ficou mais alto, batendo no teto como se quisesse nos lembrar que lá fora tinha gente, que a gente podia ser vista. Mas nenhum dos dois se mexeu pra abrir a porta.

Ele inclinou o corpo um pouco mais na minha direção, sem me tocar. Eu vi as olheiras dele na luz fraca dos postes, o jeito como a barba por fazer marcava o queixo. O banco de couro frio rangia debaixo de mim cada vez que eu mexia o quadril.

— Eu queria ter feito diferente — falei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. — Queria ter te chamado pra sair, pra conversar, pra qualquer coisa.

Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo sob o terno. A mão dele descansava no console entre os bancos, os dedos grandes batendo devagar no couro rachado. Eu olhei para aquela mão e senti um aperto no meio das pernas, como se o carro inteiro tivesse ficado menor.

— Eu também — ele respondeu, a voz rouca. — Tanta coisa que eu podia ter feito diferente.

O rosto dele estava perto agora, tão perto que eu sentia o calor da respiração dele no meu rosto. A chuva batia no para-brisa como um tambor, marcando o tempo que a gente não ousava quebrar. Meu coração batia forte, o vestido colando na pele úmida.

Ele se inclinou mais, e eu fechei os olhos quando os lábios dele tocaram os meus. O beijo começou devagar, quase hesitante, depois ficou urgente, como se a gente tivesse guardado isso por anos. As mãos dele apertaram meus ombros por cima do tecido, puxando o vestido contra o corpo.

— Gostosa — ele falou contra minha boca, a voz grossa. — A gente não devia.

— Eu sei — respondi, mas não me afastei. Minhas mãos subiram pro peito dele, sentindo o calor que passava pelo terno. O cheiro de chuva entrava pelas frestas das portas, misturado com tudo que a gente era agora.

Ele puxou meu corpo pra mais perto, as mãos grandes descendo pelas minhas costas por cima do vestido. Eu senti os dedos dele apertando a seda, sentindo a curva da minha cintura, descendo devagar até onde o tecido acabava. O couro do banco rangia debaixo de nós, o som da chuva ficando mais alto lá fora.

Minhas mãos desceram pro colo dele, sentindo o calor que vinha de baixo do terno. Ele respirou fundo quando eu encostei, o corpo dele tenso sob o tecido. O beijo ficou mais fundo, as línguas se encontrando, o gosto dele misturado com o cheiro de madeira que subia da pele.

— Tira esse terno — falei, rouca, as mãos puxando o tecido dos ombros dele.

Ele tirou o paletó sem parar de me olhar, jogando no banco de trás. O cheiro dele ficou mais forte, suor e madeira misturados com o calor do carro. Minhas mãos desceram pelo peito dele por cima da camisa, sentindo os músculos que eu não lembrava serem tão definidos.

As mãos dele subiram pela minha coxa, o tecido do vestido verde subindo devagar. Eu abri as pernas um pouco mais, deixando ele sentir o calor que vinha de mim. Os dedos grandes apertaram a carne, subindo até onde o vestido acabava, parando bem na beira.

— Gostosa — ele falou, a voz quase falhando. — Se a gente continuar...

— Eu sei — respondi, mas não tirei a mão do peito dele. O beijo voltou, mais urgente agora, as respirações misturadas no ar quente do carro. A chuva batia no teto como se quisesse nos lembrar que lá fora tinha gente, que a gente podia ser vista.

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