Cheguei na casinha na serra com o corpo moído da semana e o Bernardo já tava lá dentro acendendo a lareira. A gente combinou que cada um ia vir do seu lado, sem pressa, pra poder chegar com a cabeça leve. Quando desliguei o motor, o silêncio da serra pareceu apertar ao redor do carro.
Desci devagar, sentindo o ar frio da serra entrar por baixo da blusa fina e depois pela blusa de linho aberta por cima. O vento carregava cheiro de terra molhada e folhas caídas. Fiquei ali um instante com a mão no teto do carro, só respirando, enquanto a porta da casinha ficava entreaberta, soltando luz amarela pra fora.
Entrei e fechei a porta atrás de mim com cuidado pra não fazer barulho. O cheiro de pinho queimando subiu logo, quente, misturado com um pouco de fumaça doce. Meu ombro relaxou contra o batente da porta sem eu pedir, e o cansaço da semana pareceu afundar um pouco mais fundo nos músculos.
— Você pensou em tudo mesmo — falei, olhando a lareira que já começava a pegar. — Essa lareira já deixou o lugar quentinho.
Ele se levantou devagar, limpando as mãos na calça jeans, e sorriu sem falar nada primeiro. O fogo estalava baixo, rachando os pedaços de lenha que ele tinha colocado antes de eu chegar.
Parei perto da janela entreaberta pra tirar o casaco. Gotas grossas batiam no telhado de zinco lá fora, um som seco e espaçado que entrava junto com o ar frio. Eu fiquei ali olhando a chuva fina, sem saber direito se era pra me distrair ou só pra dar tempo pro peito parar de bater tão forte.
— Trouxe vinho também — ele disse, quase baixo, apontando pro balcão da cozinha pequena. — Pensei que a gente podia tomar depois.
Eu balancei a cabeça, ainda olhando a janela, sentindo que a casinha parecia menor com ele ali dentro, mas de um jeito que não apertava. O sofá de lã ali perto parecia áspero só de olhar, e eu me imaginei sentada ali em algum momento, sem saber ainda o que a gente ia falar primeiro.
A tela do celular brilhou um segundo na minha mão, um recado de trabalho que eu não queria ler agora. Apertei o botão e a luz sumiu. Quando levantei os olhos, ele estava de joelho perto da lareira, remexendo a lenha com um pedaço de pau. Os ombros dele pareciam ocupar quase toda a largura da chaminé. A barba por fazer deixava o queixo mais marcado, e eu fiquei ali um tempo só olhando o jeito que a luz do fogo batia nele.
— Trouxe comida também — ele falou, virando a cabeça um pouco pra me olhar. — Nada de grande coisa, só o que a gente gosta. Pensei em fazer alguma coisa mais tarde.
A gente ficou um tempo em silêncio, só escutando a chuva lá fora batendo devagar no telhado. Ele se levantou, limpando as mãos na calça de novo, e foi até o balcão. Abriu a sacola que tinha trazido, tirando uma garrafa de vinho e um pacote de biscoito que eu reconheci da padaria perto de casa.
— Você tá com cara de que não dormiu direito essa semana — ele disse, sem virar. — Tá tudo bem?
Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não estava me olhando.
— Tá, só cansada mesmo. Mas aqui já tá melhor.
Ele riu baixo, um som grave que pareceu se misturar com o crepitar da lenha. Virou com dois copos na mão e veio andando devagar até o sofá. Parou do lado, sem sentar, só segurando os copos e me olhando um segundo a mais do que precisava. A barba dele parecia mais escura agora, com a luz baixa. Eu segurei o olhar dele até sentir que o peito apertou um pouco, e baixei os olhos pro vinho.
O vinho descia morno pela garganta, mas o calor que subia do fogo parecia mais forte agora que eu percebia o quanto ele estava perto. O sofá de lã roçava a parte de trás das minhas coxas por baixo da calça jeans, áspero o bastante pra eu mudar de posição sem querer. Ele ainda segurava os dois copos, um na mão direita e outro na esquerda, como se tivesse esquecido que podia entregar o meu. A barba marcava o queixo dele com uma sombra que eu nunca tinha reparado tão de perto.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versão— Eu tava pensando em como foi estranho a gente marcar isso com tanta antecedência — ele disse, baixando um dos copos na mesinha ao lado do sofá. — Tipo, todo mundo fala que fim de semana na serra é pra relaxar, mas eu fiquei a semana inteira pensando se ia conseguir chegar aqui sem parecer nervoso.
Eu ri, um som baixo que saiu antes de eu pensar. Segurei o copo com as duas mãos, sentindo o vidro frio contra os dedos. A chuva continuava batendo no telhado, mais espaçada agora, como se o tempo tivesse decidido ir mais devagar também.
— Você não parece nervoso — falei, olhando pro vinho em vez de pra ele. — Tá mais quieto que o normal, mas quieto de um jeito que parece que tá tudo certo.
Ele deu um passo de lado, não pra se afastar, mas pra apoiar o ombro no batente da janela. A luz da lareira batia de lado nele, fazendo a calça jeans parecer mais escura e os ombros mais largos que o normal. Eu segui o movimento dele com os olhos, reparando no jeito que a mão grande dele ficava apoiada na madeira da janela, os dedos abertos como se ele precisasse de espaço pra segurar alguma coisa.
— Eu não queria chegar aqui e começar falando de trabalho ou de coisa que não importa — ele continuou, a voz mais grave que o crepitar da lenha. — Quis que a gente tivesse tempo pra só ficar quieto, sabe? Sem pressa de resolver nada.
A gente ficou em silêncio um segundo, e eu senti que o ar entre a gente mudou de algum jeito. Não era mais o silêncio de duas pessoas que acabaram de chegar num lugar novo. Era o tipo de silêncio que vem quando alguém diz uma coisa e a outra pessoa entende que tem mais por trás.
— Eu fiquei a semana inteira pensando nisso também — falei, baixando o copo devagar. — Não de um jeito ruim, só... pensando em como ia ser a gente aqui sozinha, sem nada pra fazer além de ficar junto.
Ele virou a cabeça pra me olhar, e o sorriso de lado que apareceu no canto da boca dele parecia mais lento que o normal. O olhar dele demorou na minha boca um segundo a mais do que precisava, antes de subir de novo pros meus olhos. Eu segurei o olhar, sentindo o peito apertar de um jeito diferente agora, mais quente, mais perto da pele.
— Eu te amo — ele disse, quase num sussurro, como se as palavras tivessem saído antes dele decidir falar. — Eu não tava planejando dizer isso hoje, mas parece que saiu sozinho.
A chuva lá fora parou de repente, deixando só o som da lenha rachando no fogo. Eu senti que o corpo inteiro ficou mais leve e mais pesado ao mesmo tempo, como se o ar tivesse ficado mais denso entre a gente. Ele não se mexeu, só ficou ali com o ombro ainda apoiado na janela, esperando.
O copo ainda estava na minha mão quando ele se afastou da janela. A lenha estalava, soltando um calor que chegava devagar até o sofá, e eu fiquei olhando pra ele sem conseguir mexer o resto do corpo. Ele deu dois passos e sentou do meu lado, perto o bastante pra eu sentir o calor que vinha dele misturado com o do fogo.
A respiração dele encostou no meu pescoço antes de qualquer outra coisa. Ele ficou ali, só respirando, e eu não sabia se virava a cabeça ou ficava quieta sentindo o ar dele subir pela pele.
— Você tá tremendo — ele murmurou, a voz grave rouca perto do meu ouvido.
— Não é frio — falei, e a minha própria voz saiu mais baixa que o normal.
Ele se aproximou um pouco mais, e eu senti o queixo dele roçar de leve na minha bochecha. O rosto dele parou tão perto que a respiração dele ficou misturada com a minha, quente, irregular. Eu fechei os olhos sem querer, só pra sentir melhor o calor que subia do lugar onde ele estava.
A boca dele encostou na minha devagar, como se ele ainda estivesse perguntando. Eu respondi abrindo os lábios, sentindo o gosto dele misturado com o vinho que a gente tinha acabado de tomar. A mão dele subiu devagar até o meu peito, os dedos grandes pararam por cima da blusa, quentes, apertando por cima do tecido.
— Eu te amo — ele disse contra a minha boca, interrompendo o beijo só o tempo de soltar as palavras. — Eu te amo, amor.
Eu prendi a respiração quando ele repetiu, sentindo o peso da mão dele apertando meu peito por cima do sutiã, os dedos abrindo devagar. Ele se inclinou pra frente, e eu fiquei ali com a respiração presa, sentindo tudo ao mesmo tempo.
Ele me puxou mais pra perto, e a mão que estava no meu peito desceu até a cintura, apertando por cima da blusa. Eu soltei o copo na mesinha sem olhar, sentindo que o corpo inteiro estava mais quente que o fogo, e virei o rosto pra ele de novo, procurando a boca dele.
— Diz de novo — falei, rouca, sentindo a mão dele apertar mais forte meu peito por cima da blusa enquanto ele repetia que me amava.

