Cheguei em casa moída do estúdio e vi o Vitor parado na sala com aquela venda e a corda nas mãos.
O corpo inteiro pesava. Os ombros doíam de tanto ficar curvada o dia inteiro, e as mãos ainda cheiravam a tinta com o café que ele tinha feito mais cedo. Meu pescoço latejava. Eu queria deitar, mas não conseguia tirar os olhos dele.
A luz do abajur batia de lado no rosto dele. Ele não sorria. Só me olhava com aquela coisa nova que a gente tinha combinado na semana passada. A barriga apertou.
O ventilador fazia aquele barulho baixo de sempre, rodando no canto. A corda que ele segurava parecia macia, mas o jeito que estava parada ali deixava tudo diferente.
— Cheguei, amor. O que é isso tudo aí?
Ele respirou fundo antes de responder. A voz saiu mais baixa que o normal.
— Fica aí.
O ventilador continuava rodando, o barulho baixo enchendo o silêncio entre a gente. Eu fiquei parada onde estava, com o peso dos olhos dele em cima. Ele desceu o olhar, parou na blusa justa que eu ainda usava, desceu mais até a saia que marcava a curva das coxas. Eu não me mexi. Só deixei ele olhar.
— Tá cansado do estúdio hoje? — ele perguntou, a voz ainda baixa, quase normal, mas com alguma coisa por baixo.
— Muito. Tava tão quente lá dentro que eu esqueci até de abrir a janela.
Ele deu um passo pra frente, sem chegar perto demais. A luz do abajur batia no lado esquerdo do rosto dele, deixando o outro na sombra. Eu vi que ele reparava na maneira como a blusa grudava no peito, no tecido da saia que eu nem tinha trocado ainda.
— A tinta ainda tá na sua mão.
Eu levantei a mão sem pensar, olhei as manchas amarelas e pretas nos dedos. Não respondi. Guardei o celular no bolso da saia depois de ver a notificação chegar e sumir na tela. Voltei os olhos pra ele.
— O que você tá pensando aí?
Ele demorou um segundo pra responder. O canto da boca mexeu, quase um sorriso, mas não chegou a ser.
— Que você parece diferente hoje.
Eu ri baixo, sem graça, o tipo de risada que sai quando a gente não sabe direito o que dizer. Olhei pro chão por um instante, depois voltei pra ele. O olhar dele estava mais demorado agora, mais direto. Eu não tirei os olhos.
Ele segurava a corda com uma das mãos grandes, os dedos fechando em volta do material de um jeito firme, sem apertar demais. A venda de tecido preto pendia da outra mão, balançando quando ele respirou. Eu reparei no jeito que os dedos dele se encaixavam, grossos, as veias marcando o dorso da mão.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versãoO ventilador girava, o som baixo preenchendo o espaço entre a gente. Eu não conseguia parar de olhar para aquelas mãos. Já tinha visto ele segurar café, apertar minha cintura, mas agora parecia diferente. Ele não se mexia. Só deixava eu olhar.
— Tava pensando no quanto você demorou pra chegar hoje — ele falou, a voz mais grave que o normal. — Cheguei a achar que você ia desistir no meio do caminho.
— Quase desisti. Tava tão cansada que pensei em voltar pro estúdio e ficar lá até mais tarde — respondi, ainda olhando pra corda. — Mas aí lembrei que você ia ficar esperando.
Ele mudou o peso de uma perna pra outra. A luz do abajur pegava no braço dele, marcando o músculo que tensionava por baixo da camisa. Eu vi a manga subir um pouco quando ele ajustou a corda entre os dedos.
— E você veio mesmo assim.
— Vim. Queria ver até onde ia dar.
Ele ergueu os olhos do chão e me olhou direto. Eu segurei o olhar, o peito apertando. O cheiro de tinta ainda subia da minha pele, com o café que ele tinha feito mais cedo.
— E aí, o que você acha que vai acontecer agora?
Ele sorriu de lado, pequeno, quase imperceptível. A mão que segurava a venda fechou um pouco mais, o tecido amassando entre os dedos.
— Acho que a gente vai descobrir juntos.
O ventilador continuou girando. Eu não me mexi. Só fiquei ali, com o calor subindo pelo peito enquanto ele continuava me olhando.
Ele deu mais um passo. A respiração dele parou quente no meu pescoço, perto o suficiente pra eu sentir o cheiro de café com o dele.
— Fica quietinha agora — ele murmurou, rouco.
Eu engoli em seco, sem conseguir responder. A blusa grudava na pele, o tecido quente. Ele inclinou a cabeça, o nariz quase encostando no meu, os lábios parando a um centímetro dos meus. Eu fechei os olhos sem querer. O ar parecia mais pesado.
Ele não me beijou logo. Ficou ali, testando, a boca tão perto que eu sentia o calor saindo dele. Minha respiração ficou curta. Os dedos dele roçaram de leve no meu braço, subindo até o cotovelo.
— Vitor...
Ele me beijou antes que eu terminasse. A boca veio firme, a língua entrando sem pressa, tomando espaço. Eu respondi com fome, a mão indo pro peito dele por cima da camisa. Ele segurou minha nuca, puxando mais pra perto. A blusa subiu um pouco quando ele apertou a cintura.
As mãos dele desceram pelos meus lados, pararam nos seios por cima do tecido. Os polegares roçaram os bicos, apertando de leve. Eu arquejei contra a boca dele, o corpo todo reagindo ao toque que demorava. Ele não tirou as mãos. Só ficou com o peso delas ali, apertando, moldando.
— Você tá tremendo — ele falou contra meus lábios, a voz mais grave que antes.
— Tô... continua.
Ele ergueu a venda e a corda que ainda segurava. Ergueu a venda na direção dos meus olhos, a corda na outra mão, minha blusa já meio aberta e a respiração presa no peito.

