Cheguei do escritório com os ombros travados e ainda sentia o calor do banho na pele quando parei na sala. O cheiro de lavanda subia da minha nuca, misturado com o zumbido baixo do ar-condicionado que deixei ligado o dia inteiro. Meu pé descalço encostou no porcelanato frio, e o contraste fez meu corpo inteiro lembrar que eu estava só com o roupão.
Fiquei um tempo parada ali no meio da sala, olhando sem ver o sofá, as plantas que eu mesma desenhei a manhã inteira. O corpo ainda carregava a tensão do dia, mas outra coisa já começava a subir, aquela vontade que eu tentava não nomear direito, mas que voltava toda noite assim que o sol baixava.
Minhas mãos foram até o cinto do roupão, apertando o nó sem desatar. Eu sabia o que ia fazer, sabia que ia ficar ali na janela de novo, esperando que ele aparecesse do outro lado da rua. O ar-condicionado deu uma parada e voltou, e o silêncio ficou mais grosso.
Me aproximei devagar da janela, o tecido do roupão roçando nas coxas ainda úmidas. A luz da varanda dele estava acesa, um retângulo amarelo que cortava o escuro do prédio da frente. Meu peito apertou só de ver.
Ele estava sentado na cadeira de plástico, virado direto pra minha janela, um copo na mão. A barba por fazer deixava o rosto dele mais marcado, e mesmo de longe eu via o jeito que os ombros largos preenchiam a cadeira. Meu estômago deu um salto e desceu devagar, quente.
Ele ergueu o copo devagar, tomou um gole, e eu tive certeza que ele me viu. Não sorriu, não se mexeu, só ficou ali com o olhar fixo na minha direção. O ar-condicionado zumbia mais baixo agora, ou talvez eu só tivesse parado de escutar.
— Hoje eu não consegui esperar — falei alto, mesmo sabendo que ele não ia ouvir da outra janela. — Tirei o roupão assim que vi sua luz acesa.
A luz amarela da varanda dele batia direto no meu corpo, e eu senti o ar-condicionado gelado batendo na pele nua. Larguei o roupão de lado e fiquei parada, os pés descalços ainda no porcelanato frio. Meu peito subiu e desceu devagar, esperando.
— Você tá me matando faz um mês, sabia?
A voz dele chegou abafada pela distância, mas deu pra entender cada palavra. Eu sorri, encostei a mão no vidro da janela como se precisasse de apoio. Ele não sorriu de volta, só continuou me olhando.
Deixei o corpo virar um pouco pro lado, mudando o peso de uma perna pra outra. O ar-condicionado deu outra paradinha e voltou, e eu ouvi um carro passando lá embaixo, pneus molhados na rua. Meu cabelo ainda úmido do banho encostou no ombro.
Ele inclinou a cabeça, como se estivesse estudando algo que não queria perder. Eu via os ombros dele preenchendo a cadeira, a barba por fazer marcando o queixo. Meu estômago apertou de novo, quente, mas eu não mexi.
— Então não desvia o olhar agora — falei, mais alto, testando se a voz chegava até ele. — Quero que você veja tudo.
Ele balançou a cabeça devagar, quase um aceno. O copo ficou suspenso na mão grande, sem subir, sem descer. Eu respirei fundo e deixei ele olhar.
Um carro buzinou longe, alguém riu na rua, o barulho normal da noite. Eu fiquei quieta, sentindo o olhar dele descer e subir devagar. Ele não falou nada, só continuou ali, a cadeira rangendo baixo quando ele mudou de posição.
— Tá quente hoje — falei, mudando de assunto, a voz saindo mais baixa. — Até o ar-condicionado parece que desistiu.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versãoEle sorriu de canto, pequeno, e eu vi que ele entendeu. O olhar dele demorou mais um pouco na curva do meu quadril, depois subiu de novo pro meu rosto. Eu não mexi.
O celular ficou na minha mão por mais tempo do que eu planejava. Abri a galeria, rolei sem prestar atenção, depois fui pro stories e digitei um “e aí”. Apaguei antes de mandar, fechei o app e deixei o aparelho virado pra baixo na mesinha da sala.
Ele mudou de posição na cadeira, os ombros se afastaram um pouco, e as pernas se abriram mais. O volume entre elas marcava contra o tecido escuro da calça, e eu vi ele se ajeitar de novo, como se quisesse que eu notasse.
— Eu ia mandar uma mensagem agora — falei, encostada no vidro, a voz saindo mais baixa do que eu queria. — Abri o app, escrevi, apaguei tudo. Achei que ia parecer desesperada.
Ele sorriu de canto, o tipo de sorriso que parece que ele guardou pra si. Uma das mãos grandes descansou na coxa, os dedos abertos, e eu vi que ele não ia responder.
O porcelanato continuava frio nos meus pés, mas meu corpo inteiro parecia mais quente. O ar-condicionado deu outra paradinha, o silêncio veio forte, e eu ouvi só o zumbido voltando devagar.
O copo na mão dele balançou um pouco quando ele mudou o peso na cadeira. Ele não olhou pro celular, não fez nada além de continuar me encarando, e eu senti que ele estava esperando eu falar de novo.
— Eu quase mandei uma foto — continuei, rindo baixo, sem graça. — Daquela que eu tirei ontem no espelho do quarto. Achei melhor não.
Ele balançou a cabeça devagar, como quem concorda com algo que ninguém disse. A luz amarela da varanda batia nele por baixo, marcando o queixo e os ombros, e eu vi a calça apertar um pouco mais.
Eu encostei a testa no vidro, o celular esquecido na mesinha, e fiquei ali sem mexer. O carro que passou lá embaixo pareceu mais distante, e o som do ar-condicionado voltou a encher o apartamento.
Ele fechou as pernas devagar, depois abriu de novo, o movimento pequeno, quase preguiçoso. Eu continuei olhando, sem desviar, sentindo que a gente estava ali só por causa disso.
Cheguei mais perto do vidro, sentindo o ar gelado da janela na ponta dos seios. Minha respiração subiu quente contra a superfície e deixou um círculo embaçado logo à minha frente.
— Tô ficando duro pra caralho aqui — ele falou, a voz grossa atravessando a distância. — Olha o que você faz comigo.
Ele se levantou devagar, os ombros largos se afastando da cadeira de plástico. Cada passo até a janela dele foi lento, como se ele estivesse me dando tempo de mudar de ideia. Quando parou, o peito quase encostou no vidro.
Nossos olhares se prenderam. Eu vi a barba por fazer marcando o queixo dele, o jeito escuro do olhar fixo no meu. A respiração dele também embaçou o vidro do outro lado, e por um segundo pareceu que a distância ia sumir.
Passei a mão por cima dos peitos, sentindo o peso contra a palma. Apertei devagar, os dedos afundando na carne macia, e vi ele morder o canto da boca.
Ele deslizou a mão grande por cima da calça, os dedos largos apertando o volume que já marcava contra o tecido. O movimento foi lento, quase preguiçoso, como se ele quisesse que eu visse cada centímetro.
— Não para — ele murmurou.
Eu apertei mais, sentindo os mamilos endurecerem contra a palma. Do outro lado, ele continuou apertando o pau por cima da calça, o movimento subindo e descendo devagar, os olhos nunca saindo de mim.
A respiração ficou presa nos nossos peitos, as mãos continuando a apertar onde a gente conseguia alcançar. O ar-condicionado zumbia baixo, e o som distante de um carro passando na rua lá embaixo parecia vir de outro mundo.

