Cheguei em casa com o corpo cansado depois de um dia cheio de clientes, mas a cabeça não parava quieta, pensando no Sérgio e naqueles jantares que terminavam sempre com beijo na testa. Fazia tempo que eu não sentia esse tipo de desejo, uma coisa que apertava o peito e descia entre as pernas.
Abri a porta do apartamento com a chave que quase escorregou da minha mão. O cheiro de café que passei antes de sair ainda tava no ar. Meu coração batia forte, como se o cansaço do dia tivesse deixado espaço pra outra coisa.
— Pode entrar — falei, dando um passo de lado pra ele passar.
Sérgio entrou devagar, com aquelas mãos que pareciam ocupar mais espaço do que o resto do corpo. Fechei a porta atrás dele e a maçaneta fria encostou na palma da minha mão por um segundo.
Acendi a luz baixa do abajur ao lado do sofá. A sala ficou com aquela cor amarelada que sempre me dá sono e vontade de ficar quieta ao mesmo tempo.
A gente ficou de pé no meio da sala pequena, sem saber bem o que fazer com o corpo depois de tanto tempo conversando na rua. Eu ainda tava com a saia preta e a blusa de seda que usei no jantar, e ele com aquela camisa social que deixava ver o tamanho dos ombros.
— Quer sentar? — perguntei, apontando pro sofá. — Ou prefere ficar aqui mesmo?
A luz do abajur batia de lado no rosto dele. Eu reparei na barba grisalha que descia do queixo e sumia no colarinho da camisa, e na maneira como os ombros dele ocupavam espaço dentro do paletó, mesmo parado daquele jeito. Ele olhou pra sala, tentando decidir onde olhar. Eu olhei pra ele.
— Tá diferente aqui em casa — ele disse, a voz grave e baixa.
— É o abajur — respondi. — Deixa tudo mais calmo.
Ele deu um sorriso pequeno e balançou a cabeça.
— Calma combina com você.
Puxei o celular do bolso da saia só pra ter alguma coisa nas mãos. Abri o story de uma amiga, uma foto de salada de quinoa com legenda de vida saudável. Digitei “parece bom”, apaguei, fechei o app sem postar nada.
O silêncio ficou ali, não incômodo, só cheio de coisa que a gente ainda não tinha dito. Eu olhei de novo pra ele, pro modo como a camisa marcava os ombros quando ele respirava. Ele me olhou de volta. O olhar demorou um pouco mais que o normal.
Sérgio parou de disfarçar. O canto da boca dele se mexeu, e ele olhou pra minha mão que ainda segurava o celular. Eu larguei o aparelho em cima do móvel do lado do sofá.
Quer essa cena com o seu jeito?
Escrever minha versão— Eu gosto quando você solta o cabelo assim — ele disse, a voz baixa, quase um resmungo. — Fica parecendo que você acabou de acordar, mesmo com essa saia toda arrumada.
Eu ri sem graça, passei os dedos na nuca e senti o calor subir no rosto. O abajur batia de lado no meu braço, deixando a pele meio dourada. Eu vi que ele reparou nisso também.
— Ontem eu quase mandei mensagem pra você. Tava deitada, sem sono, pensando no café que você sempre pede depois do jantar e quase mandei foto da xícara vazia pra ver se você ria — continuei, tentando manter a voz leve.
Ele sorriu de novo, mais calmo, os olhos ainda no meu cabelo.
— Eu ia responder de qualquer jeito.
O som de um carro passando lá fora entrou pela janela entreaberta, baixo, distante. A gente ficou quieto de novo, mas não era o mesmo silêncio de antes. Eu mexi o pé dentro do sapato e senti a sola raspando no chão.
— Você sempre parece estar pensando em outra coisa — ele falou. — Quando me olha.
Eu encarei ele direto. O colarinho da camisa social subia e descia com a respiração dele. Eu vi o jeito que a barba fazia sombra na pele do pescoço. Ele não desviou o olhar.
A distância entre a gente diminuiu sem eu perceber direito. Meu corpo foi na frente, o cheiro dele tomou o lugar do ar. Café, pele, algo mais limpo que vinha do colarinho aberto. Eu parei bem na frente dele e levantei o rosto devagar.
Sérgio respirou fundo. Eu também. O peito dele subiu e desceu perto do meu, e o ar entre nós pareceu ficar mais curto. O abajur amarelo batia no lado do rosto dele, iluminando só metade da barba.
— Você sabe que eu quero isso há semanas, né? — falei. — Só que você fica aí me beijando na testa como se fosse o fim do mundo.
Ele não respondeu com palavras. A mão subiu devagar e parou no meu rosto, o polegar roçando o queixo. Eu fechei os olhos sem querer, sentindo o peso da palma.
A outra mão veio por baixo, segurando minha nuca. Ele puxou meu rosto pro dele e a boca encostou na minha, primeiro devagar, testando. Depois o beijo ganhou força, a barba roçando meu queixo, os lábios dele abrindo os meus.
Minha respiração parou por um segundo. Quando voltou, saiu misturada com um gemido baixo que eu não planejava dar. As mãos dele desceram pelas minhas costas, quentes mesmo por cima da seda fina da blusa. Os dedos espalharam calor onde tocavam.
— Você é gostosa demais pra eu conseguir parar — ele murmurou contra minha boca, a voz grave vibrando no meu peito.
Eu me inclinei mais pra frente, sentindo o corpo dele firme contra o meu. As mãos dele desceram até a cintura e ficaram ali, segurando o cós da saia preta, os polegares pressionando o tecido. Eu senti o calor passar direto pelo pano fino e descer entre as pernas.
— Para de segurar — falei, quase sem voz. — Me beija direito, Sérgio.
Ele obedeceu. O beijo ficou mais fundo, uma mão subindo de novo pelas minhas costas enquanto a outra desceu, seguindo a curva da saia. Eu segurei o colarinho dele com as duas mãos, sentindo os ombros largos tensionados por baixo da camisa. O carro passou lá fora de novo, o som distante entrando pela janela. Eu não consegui pensar em mais nada além das mãos dele me segurando.

